UnB – FACULDADE DE MEDICINA – HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA – CENTRO DE PEDIATRIA CIRÚRGICA
EXPRESSÕES MÉDICAS: FALHAS E ACERTOS
“Deve-se
empregar as palavras na linguagem científica, com o mesmo rigor com que se empregam
os símbolos em matemática” (Plácido
Barbosa, Dicionário de Terminologia Médica Portuguesa, 1917).
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1 Médico Assistente, Professor Voluntário,
Centro de Pediatria Cirúrgica do Hospital Universitário da Universidade de
Brasília. Endereço:
simonides@uol.com.br 2 Bacharel em Língua Portuguesa e
Mestranda em Lingüística pela Universidade de Brasília. 3 Professora Adjunta de Cirurgia
Pediátrica, Universidade de Brasília. 4 Professor Titular de Cirurgia Pediátrica, Universidade de Brasília.
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Nas apresentações de artigos médicos feitas por acadêmicos de Medicina no Centro de Pediatria Cirúrgica do Hospital Universitário, Universidade de Brasília, os comentários dos membros docentes de Cirurgia Pediátrica sobre os temas relatados também abrangem atitudes inadequadas na apresentação e defeitos de linguagem médica. Como forma de apoio, foram elaboradas apostilas sobre esses itens. Uma pequena lista de expressões médicas errôneas foi organizada inicialmente. Anotações subseqüentes demonstraram que expressões errôneas, na linguagem médica, constituem vastíssimo capítulo da Medicina, embora pobremente conhecido e divulgado. Por serem motivos de obscuridades, ambigüidades e de outros problemas de linguagem que dificultam a compreensão dos relatos, é recomendável conhecer e corrigir esses desalinhos.
As considerações sobre os casos apresentados neste relato apóiam-se no que recomenda a maioria dos conhecedores da língua portuguesa e da terminologia médica. De acordo com esse estudiosos são aconselháveis, dentre outros, os seguintes princípios: (1) em linguagem, não há o certo nem o errado, visto que existem distintos níveis de linguagem. Há o adequado e o inadequado para cada um desses níveis; (2) em linguagem, é de bom senso adotar a flexibilidade; (3) a linguagem científica deve ser: exata, para não propiciar equívocos; simples, para que seja bem compreendida; concisa, para economizar tempo de leitura e de espaço nas publicações; (4) a gramática normativa, por sua formação baseada no padrão culto da língua, é a adequada à linguagem científica formal; (5) é recomendável evitar termos criticados por bons lingüistas e usar equivalentes não condenados; (6) em ciência, é conveniente que haja um só nome para cada coisa; (7) em geral, seguir regras, isto é, proceder de acordo com a maioria dos usos é preferível às exceções; (8) gírias médicas devem ser evitadas em relatos formais; (9) estrangeirismos são bem-vindos quando necessários e se não houver termos equivalentes em português; (10) expressões telegráficas ou sintéticas, em que vários termos ficam subentendidos, são freqüentemente anticientíficas por possibilitarem equívocos; (11) palavras inventadas (neologismos) desnecessariamente e inexistentes nos dicionários, devem ser desconsideradas.
Além
de consultar o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e outros dicionários, em caso
de dúvidas, é indispensável que o relator de trabalhos científicos também
consulte: (1) o Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa (VOLP), em que se registra a ortografia oficial do Brasil, elaborado pela Academia
Brasileira de Letras, disponível
no endereço eletrônico http://www.academia.org.br/ortogra.htm; (2) a Terminologia Anatômica, elaborada pela Sociedade
Brasileira de Anatomia com base na Nomina
Anatomica, publicação internacional editada em
latim, em que se registram
nomes das estruturas anatômicas humanas; (3)
os cadernos da Associação
Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT) e do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) – entidades oficiais,
isto é, amparadas por lei – para aferição de medidas, símbolos, abreviações,
bibliografias, normatização de publicações; e (4), sobretudo, revisores de redação, profissionais da área de
letras, antes de divulgar publicações médicas ou de fazer apresentações nos
encontros científicos.
O Departamento de Lingüística da Universidade de Brasília (UnB) mantém o Serviço de Atendimento ao Leitor (SAL) para desfazer dúvidas de linguagem. Atende pelos telefones (061) 340 61 62 e (061) 307 27 41.
É necessário treino e dedicação para aprender a expressar-se em linguagem-padrão. Configura-se como assimilar outra língua. Mas, adquirida essa habilidade, tal linguagem torna-se mais acessível e prática. Há vantagens compensadoras. Como veículo de expressão científica, o padrão culto permite: (1) enunciados claros, sem ambigüidades, obscuridades, equívocos; (2) concisão ao texto, enuncia-se mais com menos palavras e em menos espaço de publicação, porquanto não há prolixidades, ou seja, divagações, muitas palavras longas, termos dispensáveis; (3) entendimento fácil de um relato entre lusófonos de todo canto, porque habitualmente não traz gírias, regionalismos, modismos, estrangeirismos supérfluos, termos rebuscados, desordens sintáticas, palavras inventadas e neologismos desnecessários; (4) fácil tradução para outras línguas, visto que seus termos estão registrados em dicionários e gramáticas de uso corriqueiro; (5) aprendizado metódico, uma vez que é linguagem formada dentro de preceitos organizados por profissionais e estudiosos de valor.
Em seqüência, alguns casos de defeitos habituais de linguagem médica e sugestões de correção.
* * *
Alternativas.
Significa
opção entre duas coisas apenas. Embora aceitas por bons lingüistas, autores de
nota criticam expressões do tipo: "Há várias alternativas.".
"Procurar outras alternativas.". "Testes de cinco
alternativas.". Só há uma
alternativa. Alternar significa mudar entre duas opções. Em latim, alter significa o outro, como em alter ego (o outro eu), por exemplo. Em
razão da imperiosa Lei do Uso, o termo alternativas
tem sido usado como sinônimo de opções e assim está registrado na última edição
do Aurélio (1999). Mas tal desvio semântico, originário do desconhecimento do
significado próprio da palavra, não pode pertencer à linguagem de primeira
linha apesar de não ser erro.
A
nível de.
É das expressões mais condenadas por muitos estudiosos da língua portuguesa,
designada como espanholismo, francesismo, modismo, cacoete, tragédia
lingüística e outras más qualificações. É recomendável não usá-la. Amiúde, é
termo inútil. Por exemplo, em lugar de “dor a nível de hipocôndrio direito”,
pode-se dizer: dor no hipocôndrio direito.
Anátomo-patológico.
Escreve-se
anatomopatológico, sem hífen, de acordo com a ortografia oficial, publicada no
Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (VOLP), que tem força
de lei.
Antibiótico.
Literalmente,
significa relativo a algo contra a vida. Sempre que possível, é recomendável
usar antimicrobiano ou agente antimicrobiano, por serem termos
mais precisos.
Através. Conceituados
lingüistas repelem o uso de através como está nas seguintes frases:
"Conheci-o através de um
amigo.". "Fiz o diagnóstico através da
radiografia.". "O doente foi curado através de quimioterapia.".
"Fui nomeado através de concurso.". "Soube através de um
artigo". Através tem sentido de atravessar algo no espaço ou no tempo. Não
atravessamos uma radiografia para chegar a um
diagnóstico, nem sabemos de algo
atravessando um artigo publicado. Podemos, com acerto, usar por intermédio de,
por meio de, por, com. Ex.: Foi curado por (ou com) quimioterapia. Diagnosticar
por meio de radiografias. Nomeado por meio de concurso. Operado pela técnica de Thal.
Bala
de oxigênio. Gíria médica. Termo técnico: cilindro de oxigênio, de uso
recomendável nos relatos científicos formais. Pela mesma razão, é impróprio
dizer "torpedo” ou “balão” de oxigênio. O tamanho é expresso pela capacidade em metros cúbicos e varia entre
fabricantes e distribuidores.
Bastante grave. É recomendável dizer que o paciente se apresenta em estado muito grave, visto que não se adoece
até bastar.
Bexigoma.
Gíria
médica para indicar repleção ou distensão vesical. Inexiste nos
dicionários. Adequadamente, pode-se dizer distensão, globo ou repleção vesical.
Boca da colostomia – boca distal ou
proximal da colostomia. Pleonasmos. Do grego stôma, boca, colostomia significa boca
ou estoma do colo. Entretanto, colostomia distal e colostomia proximal são
termos aceitos por se referirem a uma parte específica da abertura. Termos
técnicos: estoma distal, estoma proximal, duplo estoma ou dupla estomia.
Bolsa
escrotal.
Redundância. Escroto é o mesmo que bolsa. É como disséssemos “bolsa bolsal”. Do
latim scrotum, bolsa. Termos
adequados: escroto, bolsa, bolsa dos testículos, bolsa testicular. Cabe
acrescentar que bons anatomistas denominam
bolsa testicular cada uma das duas divisões do escroto: bolsas testiculares,
direita e esquerda; cada testículo abriga-se em uma delas (Di Dio, 1999).
Escroto é o nome recomendável por ser o que consta na Terminologia Anatômica
(Sociedade, 2001).
Brônquio
fonte. Recomendável:
brônquio primário ou principal, como está registrado na Terminologia
Anatômica
(Sociedade, 2001) e nos compêndios de anatomia.
Cirurgia. Em
linguagem
culta, refere-se à disciplina que trata das intervenções cirúrgicas ou
operações. É recomendável dizer, por exemplo: operação de Duhamel, operação de
Peña, operação de Thal.
CID. É incorreto
dizer "o CID da doença", "o número do CID". A sigla
significa Classificação
Internacional de
Doenças, não Código Internacional de Doenças. Se classificação é do
gênero feminino, diz-se, então, a CID. Além disso, atualmente a
Classificação é expressa em sistema que inclui letras e números, o que
caracteriza código, não número. Desse modo, é mais adequado referir-se ao
código da CID, não ao
número da CID.
CT
de crânio.
Em português, diz-se tomografia computadorizada; logo, a sigla adequada é TC, não CT,
sigla anglo-americana.
Colher
gasometria. Expressão coloquial sintética, inadequada para relatos científicos formais. Não é possível,
evidentemente, colher gasometria, hemograma, leucograma. Colhe-se material para
realização dos
exames.
Colostograma. Inexiste nos
dicionários. Termo impróprio, já que não se faz exame radiográfico contrastado
de colostomia, porquanto esta é apenas a porção externada do colo. Recomendável:
colografia distal ou proximal (à colostomia).
Corrigir
a gasometria. É mais adequado dizer: corrigir
os distúrbios gasosos. Gasometria é a aferição
química da quantidade de gases
existentes em uma mistura, não um distúrbio. Hemogasometria é termo mais exato para indicar aferição de gases
sangüíneos.
Diagnóstico
à esclarecer. Corretamente: diagnóstico a esclarecer. Nesse caso, o a não é craseado, porquanto antes de
verbo não há crase, visto que, aí, não há artigo, mas só a preposição a. Cabe ressaltar que bons lingüistas
condenam essa construção por ser francesismo.
Preferem dizer, por exemplo – diagnóstico para
esclarecer, e outras formas.
Devido
a.
Expressão excessivamente usada nos relatos médicos. Pode denotar pobreza de
vocabulário. Há muitos termos equivalentes:
pelo, pela, graças a, por causa de, em virtude de, mercê de, em razão de, em
resultado de, em decorrência de, em vista de, graças a, causado por, em
conseqüência de, secundário a, ocasionado por
e outros.
Dreno de penrose – dreno de Pen Rose. Correto: dreno de Penrose. De Charles
Penrose (1862–1925), ginecologista norte-americano.
Duhamel – operação de Duhamel. Epônimo em honra de Bernard Duhamel, cirurgião-pediatra francês.
Pronuncia-se diamél, não durramél.
Em. São criticáveis expressões do tipo: "dor em joelho direito", "dor em fossa ilíaca direita",
"edema em membros
inferiores", "abscesso em
região deltóide", “amputação em
perna esquerda”. A tendência normal do
português é usar artigo antes de
substantivos especificados e omiti-los
antes dos que têm sentido generalizado. Assim: dor em joelhos e dor no
joelho esquerdo; edema em membros e edema nos membros inferiores. O hábito de alguns em omitir os artigos que
especificam nomes contribui para a desorganização da nossa língua.
Endovenoso.
Termo
defeituoso por ser híbrido, isto é, formado com elementos de línguas diferentes
(do grego, endo, e do latim, vena e -oso). O hibridismo é criticado por bons gramáticos, especialmente
quando existem outros termos bem formados que podem ser acolhidos. Nesse caso, intravenoso é o termo adequado, já que
todos os seus elementos são latinos. Assim, é preferível a abreviação IV
(intravenoso) a EV (endovenoso).
Envolver. São
criticáveis frases do tipo: "A lesão envolve o pâncreas e o
duodeno.". "Metástase envolvendo ossos.". "O seqüestro
envolveu a cabeça do fêmur". Em rigor, envolver significa rodear,
cercar,
abranger em volta. É freqüente a expressão “metástase envolvendo fígado”. Mas
uma metástase não envolve um fígado. Na verdade, dá-se o contrário. Podemos
dizer com exatidão: a metástase invadiu
(ou comprometeu) o fígado. Outros exemplos: A lesão atingiu pâncreas e o duodeno. O seqüestro acomete a
cabeça do fêmur. O tumor afetou o rim direito. // Outrossim, podemos dizer acertadamente: O
abscesso envolve o apêndice. O tumor envolvia a artéria renal. A meninge
envolve o cérebro. O periósteo envolve o osso.
Evidenciar. Verbo
desgastado pelo excesso de uso em medicina. Em lugar de evidenciar, pode-se
usar outros
verbos: mostrar, identificar, patentear, demonstrar, revelar,
indicar, expor, comprovar, confirmar, constatar, verificar-se, descobrir,
certificar. Ex.: “O exame evidenciou (comprovou) anemia.”. “Evidenciada
(constatada) peritonite à laparotomia.”. “À tomografia, evidenciou-se
(verificou-se) aumento de partes moles.”.
Evoluir o paciente. São discutíveis expressões como: “O paciente foi evoluído.”. “Vou evoluir
o paciente.”. “Evoluir a dieta.”. Evoluir significa transformar-se, progredir.
Até o presente, não há, nos
dicionários, evoluir com o sentido de fazer
descrição ou anotações no prontuário sobre o estado de saúde do paciente, como
ocorre no jargão médico. Há também “fazer a evolução” do doente com a mesma acepção. No sentido fazer descrição, não se
diz “evoluir uma paisagem”, “evoluir uma personagem”, “evoluir uma
pintura”,
“fazer a evolução de uma viagem”. Parece desvio semântico de uso impróprio e
exclusivamente notado no jargão médico. Pode-se usar fazer a descrição, fazer as
anotações, anotar a evolução (da
doença), todas no sentido de descrever o curso da doença no paciente ou dos
procedimentos médicos realizados.
Esterelizar. Correto:
esterilizar. Provém de estéril, não de estérel, que não existe no léxico.
Exame
normal.
Em rigor, exame normal é o que se faz cumprindo-se as boas normas técnicas de
um
exame, seja clínico, radiológico, laboratorial, anatomopatológico, seja de
outra natureza. Em lugar de "paciente com exame clínico normal",
"exame radiográfico normal" ou "exame de urina normal",
“ausculta normal”, podemos, acertadamente, dizer: paciente normal ou sem
anormalidades ao exame clínico, sem anormalidades ao exame radiológico (ou com
raios X), urina normal ao exame de laboratório, paciente normal à ausculta.
Expressões
desgastadas. Bons gramáticos e cultores do bom estilo de linguagem
reprimem expressões surradas por denotarem pobreza vocabular. Costumam chamar
tais expressões de lugar-comum, péssimo recurso, mau-gosto. São exemplos a
serem evitados: arsenal terapêutico, ventilar o assunto, leque de opções,
devido a, monstro sagrado, no que tange a, suma importância, em termos de, dar
nome aos bois, fugir à regra, sem sombra de dúvidas e semelhantes. A expressão
“via crucis”, por exemplo, pelo próprio nome, vê-se que já foi muito usada.
Faixa etária. Expressão
demasiadamente utilizada. Em vez de faixa, podemos dizer: categoria, classe,
condição, escalão, fase, grau, grupo, nível, período, situação. Grupo parece
termo mais condizente com determinada quantidade de indivíduos. Etária pode ser
também adequadamente substituída por etática, forma consoante ao étimo latino ætate, idade, ou pela expressão de idade.
Feito radiografia. Solecismo. São errôneas expressões ou
frases como: “Em um caso foi feito fluoroscopia”. “Feito radiografia”, “Foi
feito duas nefrectomias”, “Colhido amostras”, “Solicitado radiografias”,
“Mantido observação”, “Feito laparotomia”, “Realizado ecografia”, “Foi visto
uma lesão”, “Foi diagnosticado uma hipospádia”, “Foi tentado punção venosa”,
“Foi evidenciado uma estenose”, “Foi incluído 38 crianças no trabalho”,
“Retirado os cálculos renais”, “Feito ressecção cirúrgica, seguido de
radioterapia”, “No exame, foi observado pressão arterial alta, sopro em
carótidas, pulsos radiais diminuídos”, “Orientado a mãe a trazer a criança”,
“Instituído terapia”. São erros de concordância verbal sobremaneira comuns na
linguagem médica. O verbo deve concordar com o sujeito. Na frase “Foi feita
radiografia”, o sujeito é radiografia, que é paciente do verbo fazer (na voz
passiva). Na ordem normal, o verbo está depois do sujeito. Nessas frases,
ocorre inversão da ordem (verbo antes do sujeito). Pelo exposto, expressam-se
corretamente: Foi feita fluoroscopia. Foi feita radiografia. Foram feitas duas
nefrectomias. (Foi) prescrita medicação. (Foi) prescrita eritromicina. (Foram)
dados pontos. Foram observados pressão sangüínea elevada, sopro nas carótidas,
pulsos radiais fracos. // Entretanto, nos tempos compostos com verbo auxiliar
(ter e haver) mais particípio, só o auxiliar varia: Temos preparado as mamadeiras.
Havíamos feito radiografias.
Foi de – Fui de. Formam cacófatos obscenos. Evitar ditos do tipo: “Pela taxa encontrada,
que foi de 10% dos pacientes.”. “No curso, fui de estagiário.” . “O primeiro
caso foi de uma paciente de 15 anos”. Pode-se dizer: Encontrada a taxa de 10%
dos pacientes. Ou: Entre os pacientes, a taxa foi 10%. Também: ...a taxa foi a
de 10%. Ou: o valor percentual foi 10%. No curso, fui estagiário (em “como
estagiário” também cabe duplo sentido).
Frente a – Foi mudado o tratamento
frente ao novo diagnóstico. "Frente a" inexiste no português
culto (Almeida, 1996; Martins, 1997; Medeiros, 1995). Existem “à frente de”,
"em frente a" ou "em frente de". Não há frente
a como locução prepositiva, senão como
construção castelhana (Almeida, ob. cit.). Preferir outros termos: Foi mudado o
tratamento em face do (ou: em
virtude do) novo diagnóstico; qualquer mecanismo
biológico utilizado para multiplicação gênica é ineficiente tendo
em vista os mecanismos de amplificação gênica;
devemos fazer estratégias diante das dificuldades. Pode-se dizer “fazer frente às dificuldades”,
“estar em frente de um problema”, “apresentar-se à frente do grupo”, em que frente tem função de substantivo (Almeida, ob. cit.). Pode-se
também usar: ante, diante, perante.
Grama
– gramo.
É errôneo dizer “recém-nascido de mil e quinhentas gramas”, “tumor com duzentas
gramas”. Ou: “Foram dadas trezentas miligramas de 6/6 horas.”. “Utilizamos dois
miligramos de soluto.”. “Prescritos 1,5 gramos de antibiótico ao dia”. Grama é
do gênero masculino, assim como suas divisões. Exs.: duzentos gramas, dois
miligramas, quinhentos decigramas, prescrito 1,5 grama. Na linguagem culta, gramo não existe como sinônimo de grama,
unidade de peso.
H
mudo.
Conforme as instruções 11, 12 e 42 do VOLP
(Academia, 1998), não há h mudo no meio das palavras, exceto nos aportuguesamentos de nomes
estrangeiros, no topônimo Bahia e nos compostos com hífen, cujo segundo termo inicia-se com h (intra-hepático, neuro-hipófise). São, por
isso, discutíveis termos como oncohematologia, panhipopituitarismo, rehidratação,
imunohistoquímico, polihidrâmnio, pseudohermafroditismo. Com acerto, usa-se
hífen ou, na maioria dos casos, suprime-se o h: onco-hematologia, imuno-histoquímica ou imunoistoquímica,
pan-hipopituitarismo, reidratação, poliidrâmnio ou polidrâmnio,
pseudo-hermafroditismo. O uso irregular do h
mudo mediano, na palavra, tem influência de línguas entrangeiras, mormente a
inglesa.
Há
anos atrás.
Redundância. O verbo já indica o passado. É suficiente dizer: Eu o vi há anos.
Eu me formei há dez anos. Paciente refere que, há dois anos, teve icterícia. //
Diz-se também: Eu o examinei dias atrás. Ele me consultou tempos atrás.
Haviam
pacientes.
No sentido de existir, haver é
impessoal: não é usado no plural. Diz-se gramaticalmente: Havia vários pacientes. Se houvesse
muitas dúvidas. Sabemos que haveria
grandes contradições. Há três
pacientes para operar.
Herniorrafia. Significa sutura de hérnia. Hérnia é a protrusão
de elementos de uma cavidade através de um orifício. Assim, não suturamos
hérnias, mas o orifício que as forma. Melhor: correção cirúrgica ou reparo de
hérnia.
Hidropsia
– hidrópsia. Recomendável: hidropisia (pronuncia-se hidropizía), conforme consta nos dicionários de português.
Hidropsia e hidrópsia, apesar de errôneos, são termos amplamente usados no meio
médico e poderão vir a ser registrados em algum dicionário futuramente, o que
será lamentável. Hidropsia (ou hidrópsia) indica visão da água (do grego hýdor,
água, e ópsis, vista), mas a julgar
pelo sentido de necropsia e biopsia, dá a entender exame da água, não acúmulo de líquido, que é sua acepção médica.
Hifenizações
impróprias.
O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras é a expressão da
ortografia oficial brasileira. Sua elaboração foi autorizada por lei federal e,
por respeito aos notórios filólogos que o elaboraram e pela necessidade de
haver um padrão ortográfico de valor em nossa língua, é de bom juízo adotá-lo.
Suas normas são seguidas nos dicionários Aurélio,
Houaiss, Larousse, Michaelis e
outros em suas edições mais atualizadas. Desse modo, numerosos nomes
encontrados com hífen na literatura médica, na verdade, constam sem este sinal
nesse Vocabulário. Exemplos:
ácido-básico..................acidobásico
anátomo-patológico.......anatomopatológico
ano-retal.......................
anorretal
ântero-posterior.............anteroposterior
anti-inflamatório............antiinflamatório
crânio-encefálico...........cranioencefálico
sócio-econômico...........socioeconômico
sub-agudo.....................subagudo
trans-operatório.............transoperatório
tráqueo-brônquico.........traqueobrônquico
vésico-uretral..........
......vesicuretral
Hood – Recém-nascido no hood com
FiO2 a 100%. Anglicismo
inecessário. Recomendáveis: capacete,
capuz, oxitenda, tenda de oxigênio. Não se deve dizer “capacete de Hood”. Em inglês,
hood significa qualquer coisa que
cobre, sobretudo a cabeça.
Horas. A maneira
regular de escrever as horas, preconizada pelos mais autorizados lingüistas, é,
por exemplo, – 8h20, 6h45, 12h, 15h30. Esse é o modelo adotado na linguagem
culta, na escrita-padrão, conforme consta nos melhores jornais e revistas
nacionais. O símbolo de minutos (min.) pode ser omitido. Não dizemos: São 8 e
30 horas. Mas: São oito horas e trinta minutos. Na forma indevida 8:30h, o que
precisamente se lê é 8 dividido por 30
horas (dois pontos é sinal matemático de divisão). É, portanto, cientificamente
irregular escrever 8:30, 10:40, 00:20. São também errôneas formas como hs e
hrs. O símbolo de hora(s) é só h.
Hormonioterapia. Recomendável: hormonoterapia, como é registrado nos dicionários (Rey,
1999; Academia,1998). A forma regular dos prefixos é, usualmente, forma
reduzida do substantivo ou adjetivo correspondentes. Assim, escrevem-se:
oxigenoterapia, exsangüinotransfusão. Daí, hormono
ser forma prefixal regular: hormonogênese, hormonologia, hormonossexual,
hormonoterápico.
Iatrogenia. Iatropatogenia é expressão mais
adequada. A primeira, literalmente, significa apenas produção de médico, a segunda, produção
de doença pelo médico. Do grego iatrós, médico, pathós, sofrimento, e géneia,
de génos, do radical da verbo grego gignesthai, nascer (Aurélio, 1999).
Iniciais maiúsculas inadequadas. Nas redações médicas, é comum encontrar-se “paciente com Insuficiência
Renal Aguda”, “O Hipotiroidismo Congênito é endocrinopatia comum”, “Houve
benefícios com o uso de Metronidazol”,
“Apresentou fratura da Apófise Espinhal“ e semelhantes. Em alguns casos
é nítida a influência das siglas, como este exemplo copiado de um periódico:
“Os teste utilizados foram os seguintes: Tempo de Coagulação (TC), Tempo de
Sangramento (TS), Retração de Coágulo (RC), Prova de Laço (PL) e Contagem de
Plaqueta (CP)”; mas, no decorrer do texto, o autor não mais citou as siglas
substitutivas. Bons gramáticos contestam o uso de inicial maiúscula apenas como
forma de destacar palavras. Essa
forma não consta das normas contidas na instrução 49 do Formulário Ortográfico
(Academia, 1998). São recursos adequados para destaque: letras itálicas,
negrito, versaletes (tudo em letra maiúscula), espaçamento maior entre as
letras, uso de letras com outra cor, traço subscrito. O uso de iniciais
maiúsculas é regido por normas oficiais (Academia, ob. cit.), em que não consta
a utilização supracitada.
Inúmeros. Termo usado
como reforço de expressão, mas é cientificamente errôneo. Amiúde, “inúmeros”
tem sido usado em referência a elementos contáveis. Os números são infinitos.
Logo, qualquer quantidade é numerável. É contestável citar, portanto, num
relato formal, que "o paciente sofreu inúmeras operações" ou que
"podem ocorrer inúmeras complicações" e ditos semelhantes. Podemos
substituir termos como inúmeros, um sem-número e inumeráveis por numerosos,
copiosos, muitos, vários, grande número, elevado ou alto número de. Há elementos
incontáveis (não, inumeráveis), como
estrelas, grãos de areia no mar, folhas nas florestas.
Lavagem
exaustiva.
Expressão inexata e anticientífica, já que o cirurgião não fica exausto após
lavagem de feridas contaminadas ou da cavidade peritoneal nas peritonites
purulentas, por exemplo. Afinal, ele precisará de energia para terminar a
operação. Pode-se dizer lavagem rigorosa
ou completa.
Manter
a mesma conduta. Redundância (manter a mesma). Diz-se adequadamente: Manter
a conduta.
mls. Não é
adequado dizer ou escrever "dez mls de soro", “400 mls de sangue”. De
regra, os símbolos científicos não têm flexão de número (plural). Além disso,
de acordo com os preceitos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT),
nos impressos, devemos escrever L (litro) e mL (mililitro) para não ocorrer
confusão entre a letra ele (l) e o número um(1). Exs: 2l > 2L, 10 ml > 10
mL. Por serem elementos diferentes, aconselha-se a deixar espaço entre o número
e o símbolo.
Necrotizante. Neologismo
desnecessário, ainda que existente no VOLP (Academia, 1998) e no Houaiss, procedente de necrotizar, mas
freqüentemente é usado como tradução do termo inglês necrotizing. Podemos dizer: enterite necrosante, fascite
necrosante, vasculite necrosante e similares. Outrossim, necrosante é termo
mais curto e registrado em maior número de dicionários que necrotizante.
Neonato. Palavra mal
formada por ser hibridismo, isto é, composta de um termo de origem grega (neo)
e outro originário do latim (nato). Os hibridismos são reprimidos por bons
gramáticos, conquanto muitos estejam consagrados em nossa língua e não há como
extingui-los. Mas, por iniciativa própria, podemos substituí-los por palavras
mais bem formadas. Nesse caso, recém-nascido, formado de elementos latinos, é
melhor termo que neonato.
Orquidopexia. Recomendável orquiopexia. Orqui – orquio – orquid – orquido são
prefixos provenientes do grego orkis,
orkiós, gônada masculina. Apesar de orqui ser prefixo existente em diversos
vocábulos (orquicoréa, orquineuralgia, orquipausa), nos dicionários, não há
orquipexia. Há orquiopexia e orquidopexia. Não obstante, o segundo termo é
irregular, porquanto órkidos é forma
errônea de genitivo grego (Cardenal, 1958). Da raiz ork, forma-se o tema orki,
prefixo de vários termos médicos em diversas línguas, introduzidos na linguagem
científica a partir do século XIX. Em português: orqui. Orquio é o tema grego orki
acrescido da vogal de ligação o. Pela
praxe, as palavras de sentido restritivo procedentes do grego originam-se do
genitivo dessa língua. Daí, orquiopexia é o vocábulo regular, pois tem o
elemento orquio procedente do
genitivo grego orkeos ou orkios (e não, orkidos), com valor restritivo. Galvão (1909) pondera que “o Dict. de Littré e outros trazem – orchidopexie – donde pareceria
justificar-se a forma orchidopexia; mas, de facto, não existindo o δ
(delta) no radical όρχις (órkhis), e formando-se os mais derivados congeneres com a flexão orkhio, claro é que em portuguez o vcb.
correcto e acceitavel é – orchiopexia –”.
Ostomia – ostomisado – osteoma. Ostomisado é forma incorreta de “ostomizado”, neologismo mal
formado e, assim como ostomia, é inexistente nos dicionários. Correto seria
estomizado, do grego stóma, boca, e -izado. Em português, as formas derivadas de stoma fazem-se com e, não o,
quando inicia palavra: estoma, estomatite, estomódio (Academia, 1998). Não há
“ostoma”, nem “ostomia”. Estoma é nome regular, autônomo e existente no léxico
(Academia, ob. cit.). Ex.: estoma distal (ou proximal) da colostomia. Geralmente é usado para compor vocábulos:
estomalgia, estomatomicose. O termo colostomia, por exemplo, é composto de três
elementos: colo+estoma+ia ou
colo+stoma+ia.
Do mesmo modo, podem ser também decompostos os vocábulos vesicostomia,
ileostomia, nefrostomia e semelhantes. Outrossim, não há estomia nos
dicionários como palavra independente. Entretanto, é nome encontrável na literatura
médica: “O atrativo da técnica é a presença de única estomia” e “Verificou-se a
ocorrência de dermatite periestomia”, “efluente líquido das estomias” (A. Lopes
e cols., Braz J Urol, v. 27 (suppl. 1), 2001, p. 159); “Estomias e drenos
veiculam secreções digestivas e secreções purulentas” (Margarido & Tolosa,
2001). VOLP (Academia, 1998) registra estômia. Ostomia é erro gráfico
indiscutível. Osteoma, em lugar de estomia, é erro grosseiro. Tem sido adotado,
em medicina o termo estomoterapeuta, neologismo útil e bem formado. No VOLP, há
estomocefalia, estomocéfalo, estomogástrico, estomografia entre outros. Na formação de palavras procedentes do grego ou latim,
usa-se o e prostético (não “o”) antes de termos iniciados
por s, seguido de outra consoante. Exemplos: species>
espécie, stilus> estilo, spatium>espaço, stómachós>estômago, strategía>estratégia, stoma>estoma. Note-se que não se diz “fazer uma
oscopia” mas, escopia, tendo em vista os termos histeroscopia, gastroscopia,
duodenoscopia, rinoscopia, otoscopia, colonoscopia.
Paciente
com suspeita de apendicite. Construção dúbia. Não é o paciente que
está com suspeita, mas o médico assistente é que tem a suspeita. É mais
adequado dizer que o paciente está com manifestações ou quadro de apendicite.
Dubiedade é vício de linguagem assaz criticado pelos cultores do bom estilo de
linguagem.
Paciente evoluindo estável. Expressão incorreta. Mais adequado: Paciente em condições estáveis. Ou:
paciente sem alterações do quadro mórbido. Não é o paciente, mas a doença é que
evolui e transforma o paciente com sua
evolução. Se está evoluindo, não é estável.
Paciente
evoluiu com. Expressão extremamente desgastada. Além disso, em rigor, é a doença (não o paciente) que evolui, isto
é, se transforma, apresenta complicações, diversas manifestações, desaparece ou
leva o paciente ao óbito. Paciente e doença são entidades diferentes. O enfermo
sofre a doença e toma providências contra a evolução dela. Pode-se usar outros
verbos ou mudar a construção da frase. Ex.: Paciente evoluiu com (apresentou)
dor e febre. A criança evoluiu com (teve) melhora do quadro. O doente evoluiu
bem no pós-operatório (O pós-operatório transcorreu bem).
Paciente
iniciou com dor... Frase defeituosa. Falta-lhe o complemento do verbo iniciar.
Quem inicia, inicia algo. Digamos mais adequadamente: Paciente apresenta
(queixa-se de, tem, refere) dor. Ou: O quadro se iniciou com dor. O paciente é
quem sofre as doenças. Os agentes causadores é que, de ordinário, as iniciam,
não o doente. Em geral, as manifestações são iniciadas pelas lesões, não pelo
doente, embora, em certos casos, seja o próprio enfermo causador de lesões. Um
indivíduo pode iniciar envenenamento ao tomar substâncias tóxicas ou infecção
intestinal se ingerir alimento infectado. // É característica da linguagem
não-literária dizer: “O paciente internou”, “Ele formou em medicina”, “Ele
levantou cedo”. Mas, na linguagem formal, a regência dos verbos é estabelecida
por normas de uso culto.
Palavras inventadas. Na literatura médica, há grande número de termos ausentes dos dicionários.
São invenções desnecessárias por haver equivalentes perfeitos no léxico.
Denotam desconhecimento de linguagem e, às vezes, pernosticismo e podem estar
mal formados. É recomendável evitá-los até que sejam dicionarizados ou usados
por alguma autoridade em gramática ou por médicos reconhecidamente conhecedores
de gramática e de linguagem médica e científica. Neologismos são bem-vindos
quando não há termos substitutos na linguagem corrente, como ensinam bons
lingüistas. Muitos são decorrentes do desenvolvimento científico. Alguns
exemplos de nomes criticáveis, colhidos da literatura médica, e termos
equivalentes registrados nos dicionários: reflexos “lentificados” (reflexos
lentos), rim “funcionante” (rim produtivo ou ativo), paciente “vitimizado”
(paciente vitimado), hipernatremia “dilucional” (hipernatremia por diluição),
déficit “atencional” (deficiência de atenção), criança “carenciada” (criança
carente), fígado ‘cirrotizado” (fígado com cirrose), “cirrotização” hepática
(cirrose hepática), doente “analgesiado” (doente medicado com analgésico),
“medicalização’ eficiente (medicação ou medicamentação eficiente),
“factibilidade” (exeqüibilidade), medida “paliativista” (medida paliativa),
“oportunizar” (tornar oportuno), “perviedade” (permeável), “obituar” (morrer,
ir a óbito), “refluxante” (com refluxo), “topicização” (tornar tópico),
“tumefativo” (tumefacto), “urgencializar” (tornar urgente), “seqüelado” (com
seqüela), “recreacional” (recreativo) e outros. Convém verificar
Papa de hemácias. Apesar de
ser expressão registrada no Aurélio,
o termo médico mais adequado é concentrado
de hemácias (recomendável usar o
plural, hemácias). Também: concentrado de plaquetas, concentrado de leucócitos,
concentrado de fator. A acepção própria de papa
é alimento em forma de mingau, especialmente farinha cozida no leite ou na água
até adquirir consistência de pasta mais ou menos espessa. Em rigor, papa de
hemácias equivale a mingau de hemácias. Do latim pappa ou papa, alimento
na linguagem infantil (Ferreira, 1999).
Patologia
rara, patologia grave. Nos dicionários, em geral, patologia não é sinônimo de doença.
Patologia significa o estudo das enfermidades. É o ramo da medicina que se ocupa
das alterações sofridas pelo organismo em decorrência de doenças. Do grego pathós, sofrimento, e lógos, tratado, discurso. Incluir
patologia entre os sinônimos de doença é amplamente criticado no meio médico. É
impropriedade desnecessária, porque há dezenas de termos equivalentes mais
adequados em nossa língua. Em lugar de patologia do fígado, pode-se dizer, por
exemplo, hepatopatia, distúrbio hepático, doença hepática, afecção hepática.
Raio
X do paciente. São censuráveis expressões como: "Fazer raio X do
paciente.". "Examinar o raio X do doente.". "O paciente fez
um raio X de tórax.". "Pedir um raio X de abdome.". O termo
cientificamente e gramaticalmente adequado é radiografia. Raios X (usa-se no
plural) são radiações eletromagnéticas. Em bons dicionários como o Aulete, o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e outros, raio X não é
sinônimo de radiografia. Isso comprova que raio X não tem esse significado na
linguagem culta. É preciso cuidar para que expressões populares, próprias da
linguagem coloquial, não sejam usadas na linguagem científica formal, como
publicações médicas, discursos em congressos, aulas no âmbito universitário.
Por sua dubiedade, podem ser cômicas frases como: “Tirar um raio X do
paciente.”. “Ver um raio X.”. “Acompanhar o raio X do paciente”.
Rehidratação.
Erro
gráfico. Correto: reidratação. Também
se escrevem: hiperidratação, desidratação (v.
h mudo).
Recuperação
anestésica.
São erronias, por serem ambigüidades, expressões como "alta após
recuperação anestésica", "sala de recuperação anestésica",
"recuperação anestésica satisfatória". É o paciente que se recupera,
não o anestésico ou a anestesia. Pode-se dizer recuperação pós-anestésica ou
pós-anestesia (do paciente). Ambigüidade ou duplo sentido é vício de linguagem
e deve ser evitado nos relatos científicos formais. Recuperar a anestesia é o
mesmo que reanestesiar o doente.
Recklinghausen – doença de Von Recklinghausen. De Frederich von Recklinghausen (1833–1910), patologista alemão (Stedman,
1996). Mais adequado: doença de Recklinghausen, como consignam Fortes &
Pacheco (1968). Em outras línguas, também se omite a preposição von. Cardenal (1958) registra enfermedad de Recklinghausen, Stedman (ob. cit.), Recklinghausen’s disease. Na língua inglesa, a repetição
prepositiva (of von) é evitada pelo
uso do genitivo ou pelo uso do nome antes do substantivo como expressão
adjetiva: von Willebrand’s disease, von Kossa stain. A partícula von é preposição equivalente a de em português e escreve-se com inicial
minúscula. Dizer doença de von Recklinghausen
equivale à repetição de de.
Assim, grafar Von, com inicial
maiúscula, é impróprio, apesar da indicação de nobreza da preposição von em alemão. Seria como escrever João Da Silva ou Pedro De Oliveira. Reklinghausen ou Rechlinghausen são erros gráficos.
Respirador – ventilador. Muitos dicionários registram como respirador, e não como ventilador, o
aparelho usado para respiração mecânica. Entretanto, do ponto de vista
semântico, ventilador é termo mais exato, dado que tal aparelho ventila, ou seja,
produz fluxo de ar, mas não respira, como o faz o paciente. Por conseguinte,
são termos próprios: aparelho de ventilação, ventilação mecânica, ventilador
mecânico, respiração assistida (apenas auxiliada pelo ventilador), respiração
controlada (com ritmo imposto pelo ventilador).
Severo. Tradução incorreta do termo inglês severe em expressões como “alcoolismo severo”, “baixa estatura
severa”, “anemia severa”, “icterícia severa”. Em português, grave ou intenso
são os termos recomendáveis. Ex.: severe
pain, dor intensa; severe infection,
infecção grave. Por “anemia severa”
imagina-se o mesmo ao se dizer “anemia austera” ou “anemia sisuda”.
Siglas. É comum o uso
de siglas e abreviações em medicina, mas seu uso inadequado e abusivo prejudica
a compreensão do texto. Freqüentemente, encontramos siglas de que não conhecemos
o significado (regionalismos, ou siglas de uso pessoal) e outras com muitas
interpretações. Exceto reduções muito conhecidas, como IV, AAS, DNA, sua
explicação deverá ser feita em sua primeira referência no relato médico, ou
poderá ocorrer, em relação a muitos leitores ou ouvintes, justo constrangimento
ou falsa compreensão. Em apresentações formais, é criticável escrever pcte,
qdo, tto, dn, tb, cça, c/, p/. Tais reduções são desconformes às normas
gramaticais de abreviatura. É também reprovável escrever sinais
desnecessariamente (mesmo em diapositivos) como substitutos de palavras. Exs.:
Foi observado ¯ (decréscimo)
do número de esplenectomias. A mortalidade (aumentou) em 28%. Referia dor
abdominal havia ± (cerca de) 2
dias. Criança com Blumberg+ (com sinal de Blumberg).
Sintomatologia
dolorosa. Sintoma
é manifestação subjetiva de
alterações mórbidas no paciente. Sintomatologia
significa estudo dos sintomas.
Sintomatologia dolorosa significa, literalmente, estudo doloroso da dor. Além
disso, é expressão prolixa e pode ser
adequadamente substituída por dor:
Ex.: em lugar de “Paciente com sintomatologia dolorosa leve no abdome”, pode-se
dizer: Paciente com dor leve no abdome. Sintomatologia é amplamente usada no meio
médico como sinônimo de sinais e sintomas e devemos ter em consideração a Lei
do Uso, que, infelizmente, consagra termos mesmo inadequados. Mas sinais e
sintomas têm conceitos diferentes, conforme estabelecem os estudiosos de
Semiótica. Assim, em lugar de sintomatologia no sentido de sinais e sintomas,
podemos dizer manifestações, quadro clínico ou, explicitamente, sinais e
sintomas. Nos relatos científicos formais, é recomendável usar nomes em sua
acepção precisa como apregoam bons
orientadores de mestrado e doutorado.
Sonda de nelaton. Correto: sonda de Nelaton. De Auguste Nélaton (1807–1873), cirurgião
francês que criou uma sonda de borracha para várias utilizações médicas
(Stedman, 1996). Nelaton não é material de que é feita a sonda, mas um nome próprio.
Escreve-se, portanto, sonda de Nélaton em lugar de sonda de nelaton. É
justificável a inicial minúscula para se referir, por extensão, a uma sonda
nelaton ou apenas uma nelaton, como ocorre com gilete, sanduíche, lambreta,
mertiolate, isolete, sutupack, angstrom e outros termos originários de nomes
próprios. O mesmo se aplica às sondas de Malecot, de Pezzer, de Béniqué. Mas,
nos trabalhos científicos, é substancialmente essencial usar termos técnicos
consoante ao português culto, e não formas excepcionais e exceções às regras
gramaticais. Importa notar que os epônimos podem substituídos por nomes
técnicos, cientificamente mais apropriados. Adequadamente, podemos dizer sonda
uretral ou sonda uretral de cloreto de polivinila (PVC) siliconizada, por exemplo.
SOS.
Evitar
essa sigla em relatos científicos destinados à publicação. É sinal internacional de perigo. Não pertence ao léxico médico.
Topografia.
É
a descrição detalhada de um local, o
que se escreve sobre este. Assim, é
inadequado dizer: “na topografia do baço”, “dor na topografia do rim esquerdo”,
“palpação da topografia da vesícula biliar”, “fungos existentes em várias
topografias do centro cirúrgico”. Em lugar de topografia, pode-se usar: área,
local, localização, região. Dor na topografia do baço significa que a descrição
regional do baço está doendo.
Trocater.
Procede
da expressão francesa trois cart, em
referência às três facetas na ponta do instrumento de perfuração. Trocater, em
lugar de trocarte, embora seja amplamente usado no âmbito médico, é
recomendável dizer trocarte ou trocar. A mudança de fonemas é comum em nossa
língua, que, dentre outras palavras, deu bliciqueta,
sastifeito, pobrema, Cráudio...
Tumoração – tumor. Tumoração é palavra registrada
no VOLP (Academia, 1998). No dicionário Aurélio,
está definida como formação de tumor (de tumorar = formar tumor) e presença de
tumor. Regularmente, vocábulos terminados em -ão, derivados de verbo, geralmente designam o ato indicado pelo verbo ou o efeito da ação verbal (o efeito é resultado do ato). Exemplos: realização
é o ato de realizar, amortização é o ato de amortizar, coloração é o ato de
colorir, cicatrização, ato de cicatrizar (não dizemos “cicatrização umbilical”
em lugar de cicatriz umbilical). Logo, tumoração é o ato de tumorar (formar
tumor). É difundido seu uso como
sinônimo de tumor, mas, pelo exposto e por amor à exatidão dos termos
científicos, é recomendável usar tumor em referência à massa, e tumoração para
exprimir formação ou desenvolvimento do tumor. Exs.: O tumor localiza-se no epigástrio. O tumor está
aderido. A neoplasia desenvolveu rapidamente um tumor. A tumoração distendeu a região epigástrica. A
neoplasia originou uma tumoração de crescimento rápido. Houve uma tumoração da
neoplasia. A tumoração rápida pode causar necrose no tumor. // Pela lógica,
ficam estranhas afirmações como: “Palpa-se uma tumoração.”. “Foi vista
tumoração na cavidade peritoneal.”. Excetuam-se casos em que se pode ver
crescimento rápido do tumor: em casos de hemorragia interna nesse tipo de lesão,
por exemplo. Pelo exposto, é redundância dizer: “formação de tumoração” ou
“formar tumoração”. // A maioria dos dicionários não averba essa palavra.
Maurício de Lima, em seu artigo Expressões Médicas (Jornal Brasileiro de
Medicina de julho de 1967), afirma que “tumoração não é coisa nenhuma”.
Freqüentemente, na presença do doente, usa-se tumoração para afastar o termo
tumor, de sentido mais traumático. Nesse particular, pode-se dizer massa, massa
tumoral, abaulamento, processo tumoral, crescimento, nódulo, tumescência,
intumescência, volume, neoplasia, neo, endurecimento, neoformação e há quem
use, como eufemismo, “crescimento mitótico”, lesão ou formação expansiva.
Ultrassonografia.
Recomendáveis: ultra-sonografia, ultra-som. De acordo com as gramáticas da
língua portuguesa, o prefixo ultra
liga-se com hífen ao elemento seguinte iniciado por H, R, S e vogal.
Ultrasonografia e ultra sonografia são também formas errôneas.
Umbelical. Recomendável:
umbilical. Embora umbelical tenha apoio etimológico, essa forma não é usada em
nossa língua e não aparece em nenhum dicionário de português modernamente.
Válvula ileocecal. Melhor: valva ileocecal (Sociedade, 2001). A comunicação entre o íleo e
o ceco não apresenta propriamente uma válvula, mas um mecanismo esfincteriano
semelhante ao piloro. Mais adequado dizer junção
ileocecal.
Verbos pronominais. Há verbos só usados com pronome reflexivo (se): arrepender-se, queixar-se,
indignar-se, resignar-se, suicidar-se: Paciente queixou-se de dor (e não:
queixou dor). // Outros porém são pronominais só quando usados em determinadas
situações: Os pacientes submeteram-se aos exames (mas não, submeteram aos
exames). A ferida reinfectou-se (e não, reinfectou). O paciente levantou-se
cedo (e não, levantou cedo). Ele se sentou na cadeira (e não, ele sentou). Eu
não me atrasei hoje (não, eu não atrasei hoje). Deitou-se no leito (não, deitou
no leito). Formou-se em medicina (não, formou em medicina). Classificou-se em
primeiro lugar (e não, classificou em). Ele se acalmou (não, ele acalmou).
Visualizar
– visibilizar. São impróprios na acepção de ver, observar, identificar, como estão nas frases:
"Visualizada lesão à ecografia.". "Pólipo visibilizado à
coloscopia.". "Tumor visualizado na radiografia.". Visualizar e
visibilizar significam formar mentalmente, tornar visível mentalmente, como se
vê nestes exemplos: O engenheiro deve visualizar bem seu projeto. O cirurgião
visibilizou bem a operação no dia anterior à intervenção. // Citar que um
radiologista visualizou tumor numa radiografia, pode significar que o tumor foi
“imaginado”. Vizualizar e vizualização são descuidos de grafia.
Wilms (tumor de). De Max Wilms (1867–1918), cirurgião
alemão. Pronuncia-se vilms. Assim
como também dizemos doença de vilebrand (Willebrand), canal de virsung (Wirsung), infestação por vuqueréria (Wuchereria bancroft) incisão de vertaime-migs
(Wertheim-Meigs).
COMENTÁRIO FINAL
Este modesto glossário é pequena amostra da ampla quantidade de defeitos existentes na linguagem médica, pontos criticáveis que podem levar um relator sério a situações desconfortáveis. Aborda uma área em que há poucas pesquisas, raras publicações e vasto campo para estudos, ainda desconhecido. Mesmo se censuráveis, não é errado usar as expressões correntes no âmbito médico se trazem comunicação clara. Mas cabe ressaltar que, se um médico é cuidadoso em seus procedimentos, diagnósticos, tratamentos, e elegante em seu desempenho profissional, é congruente que se expresse em português de primeiro time.
1.
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS.
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), 2.a ed., Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional, 1998.
2.
ALMEIDA NM. Dicionário de Questões
Vernáculas, 3.º ed., São Paulo: Ática; 1996.
3.
BECHARA E. Moderna Gramática
Portuguesa, 37.a ed., Rio de Janeiro: Editora Lucerna; 1999.
4.
CARDENAL L. Diccionário Terminológico
de Ciencias Médicas, 6.a ed., Barcelona: Salvat Editores; 1958.
5.
DI DIO LJA. Tratado de Anatomia
Aplicada, 2 volumes, 1.a ed., São Paulo: Póluss Editorial; 1999, p.
632.
6.
FERREIRA ABH. Novo Aurélio Século XXI,
3.a ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1999.
7.
FORTES H, PACHECO G. Dicionário
Médico, Rio de Janeiro: Editor Fábio Mello; 1968.
8.
GALVÃO R. Vocabulario Etymologico,
Orthographico e Prosodico, Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves; 1909.
9.
HOUAISS A. Dicionário Houaiss da
Língua Portuguesa, 1.a ed., Rio de Janeiro: Objetiva; 2001.
10. MARGARIDO NF, TOLOSA EMC. Técnica Cirúrgica Prática, São Paulo: Atheneu, 2001, p. 155